Concertos internacionais: mercado para chico-espertos

07-06-2026

Bad Bunny dispensa apresentações. O artista latino deu dois concertos no Estádio da Luz, na semana passada e com ele vieram inúmeras reflexões sobre estilos de vida, bem-estar, marketing e outros.

O concerto do coelho malvado, ao qual tive o privilégio de assistir, reacendeu um ângulo difícil de ignorar: os grandes espetáculos internacionais impulsionam a nossa economia, facto, mas os preços praticados afastam uma parte significativa da população no seu próprio território. Entre o impacto financeiro positivo e a exclusão cultural, o país confronta-se com um paradoxo.

Mas o pior, para mim, são as pessoas que vendem bilhetes logo a seguir a comprar; as que se aproveitam do desespero dos fãs e as que vendem o que nem têm. Já lá vamos!

A realização de concertos internacionais é um fenómeno regular em Portugal qb e lucrativo, como de outra forma não poderia ser. A presença de artistas de dimensão global, como Bad Bunny, gera um efeito multiplicador que se estende muito para além das bilheteiras, pois aumenta reservas em alojamentos, impulsiona a restauração e comércios locais, mexe com a mobilidade e até atrai turistas e visitantes estrangeiros.

Este ciclo económico é hoje uma peça relevante da estratégia de promoção internacional do país. Lisboa, Porto e até Coimbra ou Braga já receberem grandes nomes, de grandes promotores que acreditam valer a pena passar por Portugal. E nós agradecemos.

Contudo, o impacto económico tem um reverso. Os preços dos bilhetes para o concerto de Bad Bunny expõem uma realidade desconfortável. A cultura massificada, ao vivo, está a afastar quem não pode pagar por ela. E que não se coloque em questão que um espetáculo do género custa certamente (muito) dinheiro. Só que num país onde o salário médio continua distante da média europeia, assistir a um concerto internacional tornou-se um luxo, sobretudo se olharmos às somas que são feitas ao valor do bilhete, como deslocações, alimentação ou taxas de serviço.

Há uma barreira que limita o acesso à cultura e cria uma divisão entre quem pode participar e quem não pode. Portanto, a ser verdade que Portugal é palco de eventos de escala global, também é verdade que o país mantém um poder de compra reduzido, onde, arrisco-me a dizer, impera um mercado secundário – de revenda - completamente especulativo e sem escrúpulos.

Este é, agora sim, o pior cenário que vos trago: Repare-se na venda de bilhetes online que, para espetáculos desta escala, começa no dia seguinte ao anúncio de plateias esgotadas. Quem os compra quer lucrar, não quer ouvir música. Aqui a questão não é apenas económica, é social. Perde-se uma comunidade unida e empática, que privilegia a cultura, pela comunidade da ganância. Perde quem quer ter uma experiência memorável, contra quem faz disto um negócio mesquinho. Já para não falar da venda de bilhetes falsos, inexistentes.

Tive conhecimento de que no próprio dia, em grupos na internet, cibernautas tentavam revender bilhetes de última hora por mil euros. Julguem vocês, leitores, o comportamento.

A solução não passa por impedir grandes eventos, lógico, mas por garantir controlos mais apertados e, neste caso, aproveito para congratular o trabalho da ASAE, que esteve em cima do acontecimento, tendo mesmo detido pessoas por burlas.

O concerto de Bad Bunny, e outros similares, simboliza o melhor e o pior do nosso panorama cultural. Um país vibrante, capaz de atrair artistas de topo, mas cujo acesso é desigual e tornou-se um jogo de poder bilhético, ou trocando por miúdos, um jogo de chico-espertice.

in Jornal O Diabo

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