Contratempos infelizes
Todos os anos repete se o mesmo ritual. Feriados prolongados equivalem a operações especiais nas estradas e, no fim, o balanço é apresentado como um relatório de danos quase inevitáveis, com mortos e feridos. Nesta Páscoa, estão contabilizadas 18 pessoas que perderam a vida nas estradas portuguesas, segundo os dados reportados da Operação Páscoa. Isto, num único fim de semana, e continuamos a chamar-lhes "acidentes", quando nem sempre o são. Como se tudo fosse obra do acaso. Não é.
Explico: Quando alguém conduz alcoolizado, sob o efeito de substâncias ou em excesso brutal de velocidade, não estamos perante um acidente, mas perante uma escolha consciente e irresponsável. Tratamos estes casos como um contratempo infeliz, algo que acontece. Temos pena de quem perde a vida, e na época festiva seguinte repete-se o processo, esperando que os lesados não sejamos nós. Limitamo-nos a aliviar responsabilidades, a ter uma indignação passageira, e a normalizar o perigo de conduzir em alturas de forte fluxo. Seguimos em frente com o desejo de que no próximo feriado os números sejam menores e raramente o são.
As regras existem para serem cumpridas. Não são sugestões nem conselhos facultativos, mas instrumentos básicos de proteção coletiva. Quando não são respeitadas de forma reiterada e quando as consequências são tão graves, a resposta não pode ser o encolher de ombros social ou a banalização.
Mais grave se torna quando os próprios responsáveis políticos dão o exemplo errado. É impossível ignorar a incoerência do Primeiro Ministro que surge num vídeo dedicado à prevenção rodoviária, dentro de um carro em andamento, sem cinto de segurança, bem como o seu motorista. Quem é que foi o génio da sua equipa que pensou que isto era boa ideia? Pode ter sido distração, pode ter sido falha de comunicação, mas num país onde a pedagogia pública conta e os níveis de literacia são tão baixos, o símbolo fala mais alto do que a explicação.
E não se trata de um pormenor. O uso do cinto de segurança reduz significativamente (cerca de 75%) o risco de morte e de lesões graves em caso de acidente, com eficácia comprovada – como dizem os anúncios de cremes ou pastas dentífricas, mas neste caso, a sério. Com exemplos deste tipo é difícil não desacreditar algo que é, mesmo, responsabilidade de todos.
A verdade é desconfortável, mas clara: morrer na estrada não é totalmente inevitável. Resulta, em larga medida, de comportamentos que continuam a ser socialmente tolerados e juridicamente pouco dissuadidos. Enquanto insistirmos em chamar acidentes a escolhas e fatalidades a irresponsabilidades, continuaremos a fazer balanços trágicos como se fossem fenómenos naturais.
Talvez esteja na hora de mudar o vocabulário e de atitude, porque nenhuma morte na estrada é um contratempo infeliz, mas uma falha, muitas vezes evitável.
in Jornal O Diabo
