Dinheiro e exaustão. A deterioração da saúde mental nos jovens
Uma em cada seis pessoas têm problemas de saúde mental (RTP, 2021), o que significa que, muito provavelmente nos nossos núcleos, há sempre alguém que precisa de mais atenção ou carinho do que imaginamos. Num mundo apático e no qual não conseguimos parar cinco minutos por dia para nós próprios, imagine-se para pensar no outro. Esta realidade tem sem dúvida de mudar.
As notícias não enganam. "Burnout é a próxima pandemia dos trabalhadores… 54% dos jovens sofrem de burnout" (Adecco, 2021). "Um em cada cinco jovens revelam sinais de depressão" (Público, 2021). "Quase 46 mil adolescentes morrem anualmente de suicídio" (Público, 2021). Continuamos?
Em Portugal, a média de idade de saída de casa dos pais é de 33,6 anos. Já a média na Europa é de 26,5 anos. Portugal é o país com a média mais alta da União Europeia (EU). Estamos no topo, mas não por um bom motivo. No lado oposto está a Suécia, com uma média de 19 anos. (Eurostat).
É natural que os jovens não consigam sair de casa dos progenitores, se não há emprego. As gordas dos jornais dizem-nos que o desemprego juvenil em Portugal é superior à média da EU e nesta, o desemprego juvenil em junho de 2022, traduzia 2,5 milhões de jovens com menos de 25 anos desempregados (ECO, 2022). É natural que não consigam se estamos no Top 10 de eletricidade mais cara da Europa também, se as rendas atingiram valores astronómicos, completamente intoleráveis – com um aumento de 42% face a 2017 e de 50% na Área Metropolitana de Lisboa e no Grande Porto (Idealista, 2022) – ou se o preço dos combustíveis não para de aumentar, sendo que grande parte são impostos. Tudo isto é contraproducente face aos salários ganhos.
A par destas preocupações, podemos referir ainda os jovens que trabalham e veem os seus direitos, que zelam pela sua saúde mental, postos de parte. Por exemplo, o direito a desligar, uma medida cujo CDS-PP foi dos primeiros a apresentar em Portugal, foi aprovada e está em vigor. Consiste nas empresas estarem proibidas de contactar os seus funcionários fora do horário laboral. No âmbito deste direito ao desligamento, as multas previstas para quem não respeite o período de descanso podem ir até aos 9 690 euros. Mas é cumprido?
Os nossos telemóveis são autênticas extensões dos locais de trabalho e por isso, o labor das 09h00 às 18h00 morreu. Qualquer jovem que se sente numa esplanada a beber um café, diz, em algum momento, "estou a trabalhar" quando pega no telemóvel "é o/a meu/minha chefe".
A deterioração da saúde mental começa, também, assim, com o incumprimento do direito de desligar, de fazer uma pausa para descansar, para um café com os amigos, para ir ao ginásio, para simplesmente viver.
A saúde mental é tão importante quanto a física, na medida em que uma implica com a outra. A diferença é que a saúde mental não se vê e por isso é tão facilmente esquecida ou desvalorizada.
Os jovens portugueses têm mais do que motivos para estar desgastados, saturados e exaustos. Não só os jovens, na verdade, como a população em geral. As condições de vida não são dignificantes, não refletem o esforço, não compensam o dia-a-dia. É, por isso, não só preciso respeitar os limites de cada um, o seu espaço e proteger o bem-estar psicológico com ritmos, atividades prazerosas como exercício físico, ouvir música e outros que diminuam os níveis de stress e ansiedade, como melhorar drasticamente as condições socioeconómicas dos portugueses.
Este é um círculo vicioso e uma perigosa espiral, que as empresas e o Estado não estão a conseguir combater. Olhemos mais para o outro, com mais empatia.
in Ionline
