Equidade nivelada por baixo

19-06-2026

A aproximação entre o salário mínimo e o salário médio em Portugal já não é apenas um sintoma económico, é prova de que o país está economicamente estagnado.

Vou ser direta: temos de perder a mentalidade de apresentar a subida dos salários mínimos como um grande feito rumo à equidade salarial. Aproximamo-nos perigosamente do sonho da esquerda! É preciso perceber o que é que se passa para que o salário médio não se mova, antes de termos o Estado constantemente a acenar com mais aumentos do salário mínimo. Caso contrário, acabamos a ter a maioria da população a receber o salário mínimo e cada vez mais gente a ter a sua progressão salarial dependente do Estado, como a esquerda gosta.

Recentemente, novos dados revelaram que os dois salários se aproximam mais que nunca, e a subida do mínimo, no caso, não pode ser considerada progresso. Exceto para os amigos de esquerda. É um espelho desconfortável de uma economia que não cresce, de empresas que não conseguem pagar melhor e de um Estado que se habituou durante demasiado tempo a confundir aumentos administrativos com desenvolvimento real.

Se o salário mínimo sobe por decreto, o salário médio não sobe porque falta riqueza para o sustentar, e esta convergência, celebrada por alguns como vitória, é na verdade o retrato de um país que se resignou à mediocridade. A estagnação é tão evidente que se tornou parte do quotidiano - as carreiras não evoluem, os aumentos são simbólicos e a sensação dominante é a de um Portugal que se mexe, que tem futuro, meios e ferramentas, mas que não sai do mesmo sítio.

Paulo Portas resumiu esta realidade com precisão no seu último comentário na CNN Portugal: "Salários baixos não incentivam a trabalhar melhor. As pessoas têm que ter esperança que podem subir na vida." A frase é certeira porque expõe o que muitos evitam admitir, o problema além de financeiro, é emocional também. É sobre orgulho, ambição, dignidade e a convicção de que o esforço e o trabalho compensam. Quando o salário médio se cola ao mínimo, significa que não vale a pena tentar subir, porque não há degraus para subir, sendo esta uma mensagem devastadora.

Embora os números de emigração tenham descido (ao contrário dos de imigração – mas não nos vamos debruçar sobre isso), quem fica por amor ao País, por opção, por querer estar, fica sem entusiasmo – sem praticamente oportunidades de evoluir. Por isso, entre os jovens, essa é uma realidade que se transforma em desilusão. Olhar para o mercado de trabalho português e ver um futuro curto, com remunerações baixas, progressões inexistentes e comparar o custo de vida europeu com rendimentos que não lhe fazem jus é, naturalmente, desmotivador.

A distância face à Europa torna se ainda mais evidente quando os portugueses viajam, não quando estão sossegados no seu bairro. É que o salário que em Portugal permite sobreviver – sim, sobreviver – é por demais evidente que não serve para cobrir refeições, transportes, atividades culturais ou simples consumos quotidianos lá fora, que se tornam quase proibitivos. Muitos portugueses sentem se pobres quando viajam pela Europa, confrontados com a diferença entre o que ganham e o que os restantes europeus ganham. É uma comparação pouco justa, claro que sim, mas existe. As pessoas ficam no silêncio porque não se querem sentir inferiores, mas o pensamento é profundo e reforça a perceção de que o país, com tanto que tem para oferecer, fica para trás.

A aproximação entre salário mínimo e salário médio não é de todo um sinal de justiça social, mas um enorme alerta sobre a atualidade da economia portuguesa que foi castrada durante anos a fio por políticas socialistas. Revela falta de ambição, falta de competitividade e falta de visão. Portugal precisa de recuperar a capacidade de premiar o mérito, valorizar profissionais e criar condições para reter talento – com dinheiro real, com empresas a crescerem de forma vertical e não horizontal, com trabalhadores felizes.

Sem isso, Portugal continuará a ser um país onde só o salário mínimo sobe, porque tem de subir, mas onde o futuro permanece imóvel. Já a esperança, essa continuará a descer. Queiramos todos que o salário médio suba, porque só assim teremos o sinal de que há degraus por alcançar!

in Jornal O Diabo

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