O Cantinho do Fado
10-07-2019

O cantinho do fado - uma opinião muito alongada, cheia de aspas.
Lamento imenso a quem ofenda, "na verdade não lamento assim muito, coisa nenhuma", mas a primeira coisa que tenho a dizer é: se gostam de fado, não vão! A segunda é: se gostam de petiscos, não vão!
Agora sim, por partes, para ninguém se perder. De facto as ruas da baixa de Setúbal dão para nos perdermos, principalmente para quem não lhes conhece ainda o faro, os azulejos a cada esquina, as múltiplas cores e os segredos escondidos na calçada. Essa é a parte boa, já que podemos fechar os olhos às casas abandonadas e estragadas, à população que lá se instala sem autorização "ok, não vou falar nos ciganos para não ofender mesmo ninguém e para não me chamarem fascista". Por entre ruas e ruelas apareceu uma nova casa de fados "está ainda longe de ser uma casa de fados mas assim a designaram", de seu nome O Cantinho do Fado.
Descobri há pouco tempo que o fado tem encanto "detestava, confesso, e ainda há muita coisa que me é desagradável ao ouvido" e desde que experimentei ir a uma noite de fados que considerei que haveria de ir a outras mais!
Na Rua Dr. António Joaquim Granjo, há uma entrada azul turquesa, de portas abertas, pronta a receber a clientela. Ao chegar tive uma vontade imediata de virar costas. Vamos dar uma oportunidade, se correr mal, não voltamos, pensei. "Ai não volto não, mas isso já perceberam."
Encontrei um atulhado de mesas "e eram poucas", que tinham potencial, já que eram de madeira com tampos de vidro e grãos de café no seu interior, muito rústicas, mas espaço para andar entre elas era nulo. Trata-se de um sitio claustrofóbico "e eu nem sofro muito com isso", sem organização absolutamente nenhuma, sem espaço para estar e para o serviço funcionar. Passava-se de lado, por entre mesas. Local para os fadistas, nem vê-lo. Aliás, fadistas, vi-os pouco mas já aí chego.
Estavam três mesas ocupadas, das doze. Um balcão preenchia parte do espaço e em frente a este estavam dois músicos "não os considero músicos mas adiante", a fazer gemer as suas guitarras portuguesas. A mesa estava supostamente reservada mas, a senhora que creio ser a dona do estabelecimento, ordenou que nos sentassemos onde quiséssemos. Ao pedir-se a ementa, com desejo de que esta superasse o primeiro impacto e fizesse valer a pena o espaço tão mal aproveitado, não veio, porque não havia. De boca e sem preços "podia ter corrido muito mal, correu só assim assim" ouvimos os ditos petiscos, do dia.
De entre quiches, enchidos, saladas frias, e o típico choco-frito, "não me lembro o que tinham mais" pedimos um queijo da serra, linguiça assada, pão, óbvio, um pratinho de salada de polvo e choco-frito, ou não fosse Setúbal a mãe do mesmo. E a desilusão começou a ser ainda maior... Para além da linguiça ter sido esquecida "no meio de tão poucos clientes, sublinhe-se", veio tudo menos assada e eu só comentei que as que meu pai assa em casa são tão melhores. A salada de polvo, com pouco sabor, por mim teria sido mais bem temperada "eu sou uma nódoa na cozinha, fiquem sabendo!", e o polvo parecia uma pastilha elástica. Nem o queijo conseguiu alegrar-me "sou doida por queijos e não há nenhum queijo mau", já que vinha com uma azeitonas que não se percebia se eram para comer ou não "imaginem o ar das mesmas" e foi uma tarefa difícil corta-lo... Com tão pouca gente no restaurante não podiam tê-lo cortado?
O choco-frito seria o salvador da desastrosa escolha que havíamos feito. Heis que chega alagado em óleo e, evidentemente só sabia a isso mesmo, a óleo. Parecia aquecido e não feito na hora. De estaladiço não tinha absolutamente nada e de saboroso, menos ainda. Com tantos sítios bons setubalenses em que se come um belo choco, porque é que se vão dar ao trabalho de vender algo que não sabem fazer? Eu posso admitir que sou esquisita mas quem me acompanhou, come de tudo, e aquele choco estava muito mau e por isso, podem acreditar. "Se quiserem."
Para acompanhar pediu-se vinho, que ainda foi, aliado ao pão, o menos mau. Não contente com o quão má estava a ser a amostra, chegou a hora de sobremesa. Mas chegou a muito custo, já que o restaurante parou quando os fados tiveram inicio. Passando algum tempo lá nos serviram cafés e uma queijada "A minha última tentativa de gostar da comida." Esta, nitidamente velha, não era do dia, e sendo eu fã de queijadas, mantive o não sorriso na cara.
Contrariamente a mim, estava a dona do restaurante que, como já referi, parou o trabalho tal como os restantes empregados, um rapaz novo e duas senhoras já com alguma idade. Ficou ao balcão a ouvir os cantos, muito satisfeita.
Sempre que vinha à mesa empoleirava-se em mim "Pelo amor de Deus afasta-te". Falava perto, muito perto, demasiado perto "Não te podes afastar, porra?". Sei-lhe o cheiro, o hálito (mau) e quantos dentes tem, por culpa da própria. "Experiência em restauração não tens nenhuma e em perceber que os teus clientes estão a ficar incomodados, menos ainda". «Se vierem perguntar se estamos a gostar, e Deus queira que não, limitamos-nos a sorrir. Não vamos dizer que não mas não sou capaz de dizer que sim», sugeri. Foi consentido e... Aconteceu.
Relativamente ao fado, já esperava o pior, por o sítio ser novo e portanto pouco divulgado ainda e vendo que havia pouca gente... Um senhor deu inicio então à noite de fados, afirmando ser apenas o apresentador mas foi ele quem mais cantou. Chegaram mais umas pessoas, umas sentaram-se a beber algo, outras ficaram a fazer o mesmo mas à porta. Destas, participaram três. Um dos músicos cantou igualmente. E rodaram, e repetiram... "A qualidade não era a melhor mas não vale a pena discutir isso porque cada um gosta do que gosta".
A noite ganhou algum ânimo, já que alguns fados eram por todos conhecidos e trauteados, inclusivamente por mim ou não tivesse o bichinho da música tão presente. Outros optaram ainda por contar anedotas. Estou há espera de um ambiente mais sério e escuro, quando vou para uma destas. E por falar em escuro, não há cá luzes em baixo. Levamos todos, toda a noite, com luzes fortes, bem brancas. Lá se vai o ambiente...
Esta visita foi feita muito por sugestão, bajulada, lida na NiT. Pergunto-me já se quem escreveu os textos sobre o assunto, na New In Setúbal, sabia realmente de que restaurante estava a falar. "Branded content. Duh! Mas será mesmo?" É que começamos logo mal «Há caldo verde e chouriço assado.» Não, não há amigos! «Esplanada? Sim» Não, não tem! Bom, é fácil perceber não só pelo que é descrito como pelos elogios que a pessoa não terá ido ao local, ou então sou eu que sou muito esquisita e, vejo mal. Há uma referência ainda há decoração. "Mas, qual decoração?"
Torno a lamentar e a sublinhar que não é minha vontade ser ofensiva, mas não é uma coisa básica, tirar o preço dos artigos decorativos que compramos? Na minha casa é, na casa daqueles com quem em dou idem e ou estamos todos parvos ou um restaurante devia ter ainda mais cuidado com esse tipo de pormenores. Todas as mesas tinham um manjerico, alusivo aos Santos, e faz sentido uma vez que a minha visita foi após as festas populares. Porém, para quem tem pouco tato para isso, não é uma boa opção ter plantas naturais como decoração. Há que ter cuidados. Não seria mais fácil um centro de mesa pequenino, tipo uma vela, e que não desse trabalho? "É que trabalho precisam vocês e muito para conseguir fazer o sítio render, não são precisas preocupações extra. Um cardápio não pode ser, mas saber os preços dos manjericos, tudo bem."
Quanto ao preço, ninguém morreu, mas é sempre chato sentir que se deitou dinheiro fora, quando se fica insatisfeito. "Infelizmente insatisfeitos."
Pode ser que daqui para a frente ganhem experiência, de atendimento e de cozinha, e o local melhore... Deixo uma referência, como ponto positivo, a casa de banho que estava limpa e notava-se que era moderna. "Quem é que vai a um restaurante por causa da casa de banho, mas pronto fica a nota."
Não é uma excelente opção.
ps: Fotografia meramente ilustrativa, não é minha, nem lá.