Não há borboletas em Lisboa

10-07-2026

Algures no tempo, parada num semáforo, perto do El Corte Inglês, zona que até nem tenho por hábito visitar, olho para a passadeira do lado e passa uma senhora, de saia, a comer um gelado. É inverno. São horas de jantar, pelo menos para mim. Vai sozinha, como aliás grande parte das pessoas que circulam. Segue-se um rapaz. Cada um por si. É assim que Lisboa exige que seja, pouco pessoal, pouco ágil, pouco empática.

Em março sentei-me no Balcão 2 do Meo Arena para ouvir Sara Correia. Não tem sido um ano nada fraco no que toca a concertos assistidos e na qualidade destes. A dada altura fiquei com os olhos marejados de lágrimas. Uma e outra vez. Tentei que ninguém visse. Sempre ouvi dizer que fado é sentimento, mas eu prefiro guardar os meus.

Em Lisboa, passo bons e maus momentos. A chave é que são muitos momentos. Demasiados.

Respondo sempre que não quero viver em Lisboa, nunca, jamais, quando questionada. Não compreendo o porquê das pessoas se quererem mudar propositadamente para o caos. Dizem-me que, assim, têm tudo à mão: atividades, cultura, restaurantes, gente. Mas em que é que é impedimento ir lá, ter experiências, e voltar para casa?

Não vejo beleza no lixo, nem na sujidade constante da capital. Na insegurança, nos grupos que olham, nos que oferecem droga, nos que filmam. Não vejo beleza sequer nos semáforos, mesmo quando estou a olhar e a observar tranquilamente em volta, nem nas buzinadelas ou nos acidentes. Nos sem abrigo que me dão dó, no desconhecido das caras por quem se passa ou nos alternos. Nem sequer vejo beleza na herança de tantos nomes que aprendemos nas aulas de história, porque lembram problemas atuais como o perigo sísmico, o que é só por si inquietante.

A verdade é que cresci numa cidade com cerca de 8 mil eleitores. Com alma. Aí sim encontro fascínio e mais do que isso, orgulho. É que Lisboa é indiferença e a indiferença não é bonita, nem tem cor, nem cheira a mar.

Um dia dei por mim a pensar que nunca vi uma borboleta em Lisboa, mas nunca vi mesmo. Não é uma metáfora, é um facto. Uma borboleta livre, em passeio, colorida a cheirar flores. A azáfama e as enchentes não o permitem, são aliás antagónicas a esse estado e possibilidade. Borboletas combinam com amor e apesar de já lá ter amado, dançado e rido, não é sítio a que faça tais associações, pelo menos, de caras.

Percebendo-se que não sou de Lisboa, podia ter-me tornado dela por meio de estudos, estágios e trabalhos. Definitivamente não sou. É uma cidade que me faz confusão, muita mesmo e cada vez mais. Acho-a sufocante, por vezes medonha, desperta em mim mais ansiedade do que felicidade. Sonho, até, em não me encontrar com Lisboa, a menos que seja para comer um bife no Café de São Bento, às horas que eu quiser, quando quiser.

Espero que um dia o alcance.

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