O poder da água
Um dia destes, ia no rio Sado, de Setúbal até à margem alentejana de Troia e escrevi umas frases: Deleitosamente, bate o sol na água e brilha como nunca ninguém brilhou. As ondas formam-se livres como nunca ninguém o foi. E a imensidão da água é tanta que não se sabe finita, tão expansiva como nunca ninguém conseguiu. Achamo-nos nós poderosos, tão enganados como só a gente o é.
Ia a olhar para as leves ondas que se formavam por onde o barco passava e para o brilho imenso que tinham, por culpa do sol que insistia em ser vibrante, e ainda bem. Se há coisa que não falta à água é ter pompa e circunstância, sem precisar de uma única veste ou mão.
Quão difícil parece ser começar, e continuar, uma mísera explicação sobre os poderes da água. Há lá coisa mais simples do que água? Mas na verdade, na minha verdade, águas há muitas. A praia, o mar e o rio, a torneira, o lavar, a sede e o alimento também. O trabalho, a indústria e a evolução, a reflexão, o bem-estar, o afogamento. Há a água do pescador, que sem ela não sobrevive, que olha para os trilhos ondulantes como o que sacia. Que lhe quer ver o peixe. Que lhe revê lutas. Há os nadadores que lhe vêem a competição e a vitória ou a derrota. Nadar em piscinas, metros e metros até sentir o coração sem puder mais.
Perco também a conta às vezes que, ao tomar um banho de imersão ou um duche, dos rápidos e dos mais demorados, pensei que a água era uma coisa maravilhosa e que tinha de a escrever. O que um bom banho faz. O aconchego quente de inverno e a frescura refrescante de verão. Sentir a água cair sobre os ombros, esquecer a vida, relaxar. Ou ao invés, misturar gotas salgadas no doce de um banho, de tanta falta que fazia. Ai que sensação bonita de se ver, mas impossível de ser atingida por outrém. Às vezes, tudo o que nos basta é um banho. É só isso o que é preciso.
E há a minha água preferida. Do mar. Onde posso boiar, sentir o vento a levar-me. Mergulhar e subir de sorriso no rosto, com a sensação de liberdade predominante. Com o corpo irrompido de bem-estar, seguindo-se por vezes o desagrado da temperatura. A sensação de vida a acontecer, a ser absorvida e aproveitada. Posso sentar-me nos seus começos, como uma criança pequena, na medida certa calculada sobre a rebentação, sentir os salpicos na cara e os pés a encherem-se de areia. É bom só de imaginar. O barulho. Por vezes ensurdecedor, por vezes manso a sussurrar.
E quando a noite não foge e a lua lhe bate em pleno, reluz e brilha que nem pérolas polidas. E vê-se profundo, profundo que afoga. Profundo que não acaba e se estende para lá do horizonte. Outra noite, estava lua cheia. Circular, geometricamente quase perfeita, que não há nada perfeito, riscada a compasso. Iluminava a noite e iluminava o mar. Piscavam barcos à distância. Pescadores, talvez.
Quando a meio do dia se está, ele brilha tal e qual, seja em que ponto geográfico for. Os raios do sol injectam-lhe reflexos. Vêem-se os seus inúmeros célebres tons de turquesa, ondulando. Do azul mais oceano, ao verde lagoa mais claro. Imponente, não passa despercebido.
O que há para não gostar no mar? Só se as suas tormentas e arrelias, que vociferam abismo e fúria, mas que não perdem a beleza pela brutidade natural. Só se por isso, e mesmo assim é pouca a razão. Ou então por já ter engolido alguém, cuspindo sem dó nem piedade, em circunstância diferente. Percebe-se. É e deve respeitado, por ser feroz, temível e dono de si.
Não sei o que é ver a água como trabalho, como ganha pão, mas sei o que é, para além de outras coisas, espreitar o seu brilho. Sei o que é mergulhar no interior do azul e verde, ou do incolor, e sorrir. Sorrir muito e com vontade. Sei o que é a saciação de um copo de água desejado pelo corpo e que tanto escasseia em certas zonas.
Dá-me vinho porque a vida é nada? Não. Dêem-me água que a vida é tudo!
