OP-ED - No Alentejo também se merece nascer

01-05-2020

Produção de um OP-ED, de tema livre, pedido na pós-graduação em Assessoria de Comunicação e Política.

No Alentejo Litoral também se merece nascer

É certo e sabido que no Alentejo a densidade populacional é menor que nos grandes centros urbanos. Enquanto se contam 22,4 habitantes por km2 (PORDATA, 2018), na Área Metropolitana de Lisboa (AML) chegavam aos 941,9. Ainda assim, também sabemos que em termos de território, é muito maior que a AML ou do Porto.

O Estado tenta não se esquecer das zonas Além Tejo, mas por vezes há um vazio, até se chegar ao Algarve, que já importa mantê-lo de bem pelo turismo de sol e mar. O Litoral Alentejano também tem praias... E pessoas!

Existe na zona um problema muito grande: A falta de investimento na saúde, principalmente materna. O Hospital do Litoral Alentejano (HLA), com portas abertas desde 2005, assiste cinco concelhos, num total de mais de 93 mil pessoas. Santiago do Cacém, local onde se situa, Sines, Grândola, Alcácer do Sal e Odemira. De acordo com os dados mais recentes do PORDATA, em toda esta extensão, em 2018 havia apenas um hospital, o HLA. Maternidades? Nenhuma.

Para além das quase 100 mil pessoas que serve, acrescenta-se a população flutuante, trabalhadora. Nas fábricas e Porto de Sines, há jovens empregados e o Governo fala em fixar população jovem no Alentejo, porém não concretiza com apoios para as futuras mães assumirem que por lá podem ficar.

A mesma plataforma indica-nos que nestes concelhos, houve zero partos (em 2018). Estará esta informação tão correta assim? Vejamos, se não há maternidades, não há partos para contabilizar. As grávidas são obrigadas a ir para longe, fazendo mais de uma hora de caminho. A maior parte das famílias seguem até Setúbal ou Lisboa, algumas até Beja e, as que se encontram no concelho mais abaixo no mapa, Odemira, seguem até ao Algarve, momento em que a indecisão de registar a criança por lá surge, pois deixa esta de ser naturalmente alentejana.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2013 houve mais de 700 partos, analisando o local de domicílio das mães - litoral alentejano. O INE diz-nos que os nados-vivos, de acordo com o mesmo ano e parâmetros, foram especificamente 89 em Grândola, 145 em Sines e 173 em Santiago do Cacém. Afinal sempre há mamãs na zona. É uma questão de como se recolhem os dados. Destes, sete foram ao domicílio e outros sete em "outro local".

O que é facto é que a distância entre o local de residência das famílias e as maternidades dá que pensar. Uma das complicações é não se chegar a tempo e haver nascimentos pelo caminho. Estou em crer que os sete sem local definido, podem muito bem ter sido casos destes. Todos os anos há partos em ambulâncias e o risco é elevado, pois por muito que os profissionais sejam competentes, no caso de haver dificuldades, os bombeiros e ambulância não têm capacidade de resposta e não são obrigados a ter. Obrigatório mesmo devia ser o HLA ter uma maternidade.

Desde 2010 todo o Baixo Alentejo teve uma média anual de quase dois mil nascimentos. Porém o dado que mais nos interessa é o de que, fazendo contas, Odemira representa 10% desses. Como disse, afinal há nascimentos.

Passaram-se 15 anos desde a abertura do HLA que este ano terá injeção de milhões. Dizem-nos que têm de investir em especialidades para os idosos, porque os há mais, e naquilo que já existe porque precisa de renovação. São poucos partos é certo, cerca de 450 por ano (2005). Mas os poucos merecem cuidado e atenção. Há algumas consultas de obstetrícia para as mães que tenham uma gravidez de risco, apenas, agravando desigualdades. Não se prevê para breve a instalação da maternidade, que desde sempre foi pensada. Os argumentos que nos atiram para os olhos têm, como tudo, dois lados. Se por um se compreendem, por outro estão cheios de incongruências e fragilidades.

Se o HLA já abrange tanta gente e tantos quilómetros, interrogo-me como ainda não decidiram, finalmente, instalar nele uma maternidade. É um hospital grande e com capacidade, que não precisa de obras para se acrescentar tal ala.

Está na hora de investir no que faz falta, para os jovens casais ficarem seguros, para os acidentes pelo caminho diminuírem e para as crianças se sentirem naturais de onde realmente o são.

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