Pequeno-almoço no quintal

11-08-2023

Fiz o pequeno-almoço e sentei-me no quintal a comer. Não costumo tomar o pequeno-almoço nem tão pouco tenho quintal no meu dia-a-dia. Duas torradas com manteiga sem lactose e um galão, não muito escuro, com café de máquina de casa (uma imitação da Delta) e leite igualmente sem lactose. Também gosto de alguns leites vegetais, como o de amêndoa, mas não é a mesma coisa, porque adocica as bebidas.

Estava um ligeiro vento quando me sentei, mas piorou à medida que as torradas começaram a desaparecer do prato de vidro escuro da minha casa de férias. Minha. Minha o tanas. A casa nem é nossa, mas são tantos os anos e o carinho, que é como se fosse. É do nosso avô Francisco Manuel. O avô do coração. Risquem o "do coração". É nosso avô e sempre foi. Cortava-me fatias de queijo "sotonisa" (o meu favorito) quando era miúda, e quando ainda não era 100% intolerante à lactose. É padrasto da minha mãe.

Fica em Silves, não fica às portas da praia e ainda bem. Está no campo, com vista para laranjeiras e tem uma grande pimenteira que de momento, com o vento, já fez cair folhas da sua imponente árvore dentro da minha caneca. Minha. Minha o tanas. Esta é da minha avó, é azul e tem flores. A Maria Emília gosta de azul. A única caneca dos miúdos nesta casa é laranja – cor-de-laranja vivo - e tem o desenho do Pluto. Os anos passam... As crianças gostam dessa cor, acredito.

Ainda bem, não sei bem porquê. Adoro praia, amo de paixão como hoje vejo escrito nas redes sociais (expressão que acho deveras foleira, note-se), o mar faz-me um bem desgraçado. Sou invadida de bem-estar ao pé do mar. O som, a temperatura, as cores. São aquelas coisas que se sentem mais do que explicam.

Boiar na água, com o sol a atingir-nos do topo é um deleite. Rejuvenesce o corpo e a alma. Mas isso faço na minha piscina, aqui no quintal. Minha. Minha o tanas. Não paguei nada disto. Todavia sou rainha do camaroeiro, faço sempre uma limpeza quando a uso e se me quiserem encontrar, provavelmente é só espreitarem para dentro de água que lá estarei.

No entanto, acho muito interessante não estar junto à praia. Dormir afastada da confusão turística, da gritaria, da falta de estacionamento. Isso já tenho permanentemente do dia-a-dia.

É nestes momentos que percebo que não só gosto de paz e silêncio, seja praia ou ambiente rural, mas também de cidade. Iludidos ficam os que acham que eu consigo estar por aqui sem procurar cidade. Pessoas, restaurantes, bares, agitação. Procuro, encontro, vou, faço.

É por estas e por outras que ainda não consegui perceber onde é que quero realmente estar. Dizer este é o meu lar, é aqui que quero ficar, é aqui que me faz sentido viver e estabelecer-me. Há coisas que fazem sentido em vários pontos. Muito sentido. Uns pontos são mais fortes que outros. Com muito mais facilidade digo, aqui não quero estar, para aí não vou, esse não será nunca o lugar certo e sei os porquês.

Mas por agora, pensa-se, debate-se, pesa-se e sonha-se. Não dá para mais, e quem pensa que dá, não vê notícias nem tem noção da realidade imobiliária e da vida dos jovens. Tem de ser dos dois, em paralelo. Pensar nisto deprime-me e tomar o pequeno-almoço no quintal não é deprimente. Pelo contrário, é um regalo, é saúde.

O vento está cada vez mais forte. As toalhas de praia coloridas (vencem as riscas nas escolhas) abanam no estendal, à espera de serem apanhadas e tornadas a usar, esperando não voar. Sabe bem, porque em Silves faz muitíssimo calor. É aquela cidade recorrentemente atacada pelas chamas no verão, vizinha da Serra de Monchique.

Ainda nem me vesti. Estou com um pijama de alças e calções, às pintinhas, e com um apontamento de renda preta no decote e na bainha. O vento passa pelo tecido fino e, a estas horas, ainda refresca. Desengane-se quem leu esta frase e julga que são 07h00 da manhã. Não exageremos. Pese embora seja de manhãs, também sou de dormir. E afinal, estou de férias, pelo menos, por enquanto. Isso de acordar de madrugada já o tenho como obrigação no meu dia-a-dia.

E por falar em seres e gostares: Nós podemos gostar, realmente, de muitas coisas e ser muitas numa só.

Vê o post no meu Instagram para conhecer a vista do quintal 😉

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