Quando os números obrigam bebés a nascer em ambulâncias

Fraca média de partos por dia tem sido justificação para deixar cair maternidade no Hospital do Litoral Alentejano.
Partos sucedem-se em pleno transporte para a maternidade mais próxima, que fica a hora e meia de distância. Condições são poucas e o risco sempre maior, em cada uma dessas situações.
O Hospital do Litoral Alentejano (HLA), em Santiago do Cacém, foi inaugurado em 2005. Dá resposta a cinco concelhos do Alentejo, abrangendo uma vasta área. Nesse mesmo ano, Luís Filipe Pereira (PSD), ministro da Saúde à data, assumiu que a maternidade do HLA, pedida e esperada, não era uma prioridade, dado que a média de partos por ano, nos concelhos não excedia os 450, sendo que "uma média de um parto por dia não permite a fixação de equipas médicas". No ano seguinte, após pequena manifestação de populares, o então ministro Correia de Campos (PS) foi ainda mais longe do que o seu antecessor na pasta da Saúde ao afirmar: "Não é possível criar aqui uma maternidade. Seria um erro gravíssimo porque o dinheiro que seria gasto não seria aplicado no tratamento de pessoas idosas e doentes." De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2013 ocorreram cerca de 600 partos no domicílio, na zona do Litoral Alentejano. Nesse mesmo ano, conta-se apenas um hospital a funcionar para atender Sines, Grândola, Santiago do Cacém, Alcácer do Sal e Odemira, o HLA. Estima-se que, também em 2013 e por local de residência das mães, tenham sido registados 89 nados-vivos em Grândola, 145 em Sines e 173 em Santiago do Cacém. Em todo o Alentejo, entre 2014 e 2018, os nados-vivos rondam os cinco mil por ano. Na última década, o Baixo Alentejo - que engloba 18 concelhos no total - teve uma média anual de quase dois mil nascimentos por ano. Odemira representa 10% desse número.
Volvidos 14 anos sabe-se que o HLA vai ser alvo de um "investimento de 5,7 milhões de euros para renovação de instalações e equipamentos", de acordo com declarações de fonte da administração da unidade hospitalar à agência Lusa. Estão em vista melhoramentos nas urgências e nos blocos operatórios e uma renovação geral, face à idade da construção. Em momento algum se fala na possibilidade de ter uma maternidade quando, também este ano, ocorreram alguns partos em ambulâncias, pois a unidade mais próxima, com especialidade, fica a hora e meia de caminho. O médico e investigador João Bernardes, em declarações à Imprensa, explicou que há apenas cinco especialistas no bloco de parto do Hospital de Beja, o único com maternidade a funcionar no Baixo Alentejo, e no Alentejo Litoral, "quando seriam necessários entre 16 a 18 para assegurar todas as escalas". O clínico diz que o problema se agrava de ano para ano.
Cátia Gonçalves teve um dos seus filhos o mês passado, numa ambulância. No dia 5 de Outubro, a mulher de 32 anos, residente no Cercal do Alentejo, Santiago do Cacém, chamou os bombeiros quando percebeu que já estava com fortes contracções. "Estava perto do Cercal e ponderei ir para Setúbal, mas os bombeiros aconselharam-me Beja." Porém, não houve tempo para percorrer esses quilómetros. "Os bombeiros pararam a ambulância à entrada de Alvalade", contou. "Foi uma bombeira de Alvalade que fez o parto, que foi ter connosco à ambulância, com uma colega." Considera que correu tudo bem, na medida do possível. "Eles deram sem dúvida o seu melhor e foram bastante profissionais." Ainda assim, sublinha que preferia ter tido o bebé numa unidade hospitalar. "Acho essencial a existência de uma maternidade no HLA. A gravidez é algo que envolve alguns riscos. Existem sempre muitos alertas, muitas situações que podem meter em causa a vida do bebé e nós estamos a muitos quilómetros de ajuda médica. Torna-se assustador e pode provocar alguma ansiedade e receios." E continuou: "A minha preocupação, quando me apercebi que fazer o parto na ambulância, foi a falta da toma do antibiótico para uma eventual bactéria que o bebé podia apanhar ao nascer, pois era prematuro." Cátia Gonçalves já tinha tido uma ameaça e dirigira-se a Setúbal. "Tive numa situação complicada às 32 semanas. Tive uma hemorragia às duas da manhã e tive de ir de imediato para Setúbal. Nem passei por Santiago. Fiquei internada e de Setúbal fui para Loures. Estava bastante longe de casa. Não podia ter visitas diárias e são muitos gastos."
Sílvia Lopes, de Azinheira dos Barros, Grândola, também teve um bebé este ano, a 12 de Fevereiro, numa ambulância. "Os bombeiros [quando chegaram] avaliaram e disseram-me que não chegava ao Hospital de Setúbal nem ao de Beja". Conta que estes pediram ordem para a levar para o HLA, mas sem sucesso. "Foilhes dito que ali não era maternidade nenhuma", recusando. "Estive mais ou menos hora e meia à espera que [lhes] dessem ordens. Chamaram uma equipa médica para seguirem comigo na ambulância, até à maternidade de Setúbal". Porém, a filha de Sílvia Lopes nasceu em andamento, "um pouco antes da ponte de Alcácer do Sal". Segundo esta mãe, os bombeiros "não têm os materiais necessários para fazer um parto e não têm espaço suficiente". Lembra que a filha "teve de ser logo aspirada porque ingeriu água do parto", ou seja, líquido amniótico. "Teve de ir para a incubadora, ficou lá 10 dias. Fez uma infecção e teve de tomar antibiótico. Se fosse no hospital nada disso tinha acontecido", afirmou Sílvia Lopes, acrescentando ainda que uma semana depois nasceram mais dois bebés em ambulâncias.
Mães em andamento
Opiniões profissionais
O SETUBALENSE falou com uma profissional do HLA que pertence a um grupo de Enfermeiras Especialistas de Saúde Materna e Obstétrica e com uma bombeira que assistiu este ano a um parto, para perceber melhor quais as consequências da falta de maternidade no Litoral Alentejano. Sónia Tojinha, enfermeira no HLA desde a sua inauguração, confessa que todos os dias ouve queixas de casais sobre a falta de maternidade na referida unidade hospitalar. "Explico sempre o porquê de não existir. Acho que a população não tem noção disso e deve ser informada. Pensam que é só ter uma maternidade, não sabem a quantidade de profissionais envolvidos num parto e os serviços de apoio necessários. Não se pode ter um serviço onde em 24 horas iríamos ter poucos partos ou nenhuns. Seria uma má gestão de recursos humanos e físicos", explicou, mas não escondeu ter dúvidas quanto à principal razão para tal. O grupo de trabalho constituído pelas Enfermeiras Especialistas de Saúde Materna e Obstétrica da Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano, que engloba os Cuidados de Saúde Primários e o Hospital, existe deste 2014, por haver "necessidade de uniformizar procedimentos e estreitar a partilha de informação entre o hospital e os centros de saúde". Trata-se de um grupo que "aposta na valorização dos cuidados especializados à mulher nas várias fases da sua vida".
Sónia Tojinha conta que "o HLA não tem efectivamente bloco de partos, mas oferece à população outros serviços importantes na vigilância perinatal. Todas as grávidas, que são acompanhadas nos Cuidados de Saúde Primários, são encaminhadas para a Consulta Externa onde realizam as ecografias necessárias durante a gestação". Há consultas de obstetrícia para as mães que tenham uma gravidez de risco e consultas multidisciplinares para grávidas diabéticas. E há cursos de preparação de partos. "Quanto mais informado está o casal menos risco há de acontecer um parto fora do meio hospitalar", afirma. "Os casais são informados dos sinais de alarme e dos timings certos para recorrer à maternidade. E a grande maioria chega muito a tempo. Insiste-se para que os casais se dirijam logo às maternidades na altura de parto, sem passarem pelo HLA, porém, quando são chamadas ambulâncias, mesmo que não cheguem a sair, as grávidas têm obrigatoriamente de passar pelo HLA", explicou.
Já houve partos no serviço desta profissional. "Todos eles de utentes que já não podiam ser transportadas para a maternidade, situações limite em que é sempre preferível fazer o parto em contexto hospitalar, mesmo sem bloco de partos, do que no caminho", admitiu. Segundo a bombeira, que este ano já assistiu a um parto, as ambulâncias estão equipadas com material básico - kit de partos - para a realização de um parto normal. "Se for algo mais complicado, não estamos propriamente equipados", salientou. Se não houver condições para se realizar um parto normal, tenta-se "pedir apoio da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER)", adiantou. "O HLA quando recebe uma grávida acaba por pedir o transporte de ambulância para Setúbal, por norma, e muitas das vezes sem acompanhamento de médico ou enfermeiro", tornando-se o reencaminhamento para longe de casa uma prática comum. Na sua opinião, haver maternidade no HLA, quer seja para muitos ou poucos utentes, seria "sempre uma mais-valia e mais seguro, [pois] os partos devem ser realizados em meio hospitalar", atirou, reforçando a finalizar: "Se a mãe e o bebé precisarem de cuidados, todos os minutos fazem a diferença".
Posição da CMSC e dos partidos
"A questão da maternidade tem sido esquecida, mas não pela Câmara", afirmou Álvaro Beijinha, presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém (CMSC), em declarações a O SETUBALENSE. De acordo com o autarca, a falta de maternidade no HLA é um assunto que continua a ser falado em assembleias municipais. Álvaro Beijinha defende que devia haver uma "avaliação actual" sobre o assunto, dado que hoje o concelho de Santiago do Cacém tem mais 100 mil pessoas do que quando o HLA abriu. O hospital "serve 100 mil pessoas, mais a população flutuante", nomeadamente os trabalhadores das fábricas e do Porto de Sines, os "imigrantes hortícolas" de entre os quais "muitos jovens casais".
O edil não esquece o facto de se tratar de "uma zona turística" e isso leva ao concelho "mais uns quantos milhares". De resto, sublinhou, a autarquia sempre defendeu a maternidade desde a fase de projecto, que a contemplava. "O território é grande e as distâncias são todas muito grandes", lembrou Álvaro Beijinha. Se se tiver em conta o interior de Odemira, daí até ao HLA são cerca de 90 quilómetros, exemplificou, sublinhando que "a distância faz com que haja risco para as mães e bebés".
Quanto aos partidos, PCP e CDSPP destacam-se na luta pela abertura de uma maternidade em Santiago do Cacém. A Organização Regional do Litoral Alentejano (ORLA) do PCP, em 2009, denunciou a rejeição por parte de PS e PSD, da instalação, estudo e projecto da maternidade. Em Abril de 2011, a direcção da ORLA lançou um comunicado a exigir a construção da mesma. "Não é mais admissível que uma população de 100 mil habitantes esteja privada desse serviço". E as urgências também estavam em causa. "Os serviços de urgência no HLA não têm capacidade de resposta às necessidades da população da região", lê-se no documento. Em Junho do ano seguinte, numa conferência de Imprensa da direcção da ORLA do PCP sobre a situação da Saúde no Litoral Alentejano, o mesmo assunto veio à tona.
Já o CDS-PP pronunciou-se mais recentemente, na altura de campanha para as eleições legislativas. A concelhia centrista de Sines fez uma publicação na rede social Instagram para frisar que o partido "tem tomado a liderança na luta por uma maternidade no Hospital do Litoral Alentejano, de modo a evitar problemas e que haja bebés a nascer a caminho de outras unidades hospitalares". Porém, em esclarecimentos a O SETUBALENSE, foi dito que a primeira reunião sobre o assunto aconteceu em 2010 "com a presença do Dr. Paulo Portas, que foi ao Hospital do Litoral Alentejano para ver a parte dos Cuidados Paliativos e dar o enfoque à falta da maternidade". O partido fez uma petição que ainda está activa e garante que incluiu "esta matéria nos últimos programas autárquicos, tanto em 2013 como em 2017".
in Setubalense